Texto escrito pela especialista em família e educação Dra. Gail Gross:
"Você vai fazer uma viagem de carro com seus irmãos adultos. Qual desses três cenários mais se parece com você?
1. Você vem planejando a viagem há semanas, já
cuidou das reservas de hotel e restaurante, trocou o óleo do carro e
encheu o tanque. E até já mapeou as paradas para descanso ao longo do
caminho.
2. Você passou a manhã na correria, tentando
aprontar tudo. No final, jogou lanches e roupas na mala de qualquer
jeito, na última hora. Se é você quem vai dirigir, está torcendo para
encontrar um posto na estrada e encher o tanque, que está pela metade.
3. Viagem em família? Vai ser divertido! Você
aceitou o convite porque vai ser uma curtição e não planejou contribuir
com nada, exceto suas piadas e historinhas divertidas. Você curte os
lanches que seus irmãos mais velhos trouxeram. Percebe que talvez
precise comprar um agasalho mais apropriado quando vocês chegarem ao
destino.
Se você se identifica com o cenário nº 1, é provável que seja o filho primogênito.
Se o segundo cenário o descreve bem, você é provavelmente o filho do meio.
Você se identifica mais com o cenário nº 3? O mais provável é que seja o caçula."
A ordem de nascimento faz diferença
Alguns pesquisadores consideram a ordem de nascimento tão importante
quanto o gênero e quase tão importante quanto questões genéticas. É a
velha história da natureza versus criação. Em minha experiência de
educadora e pesquisadora, sei que não existem dois irmãos que tenham os
mesmos pai e mãe, mesmo que vivam na mesma família. Por que? Porque os
pais são diferentes com cada um de seus filhos, e não há dois filhos que
desempenhem o mesmo papel. Por exemplo, se você é o filho cuidador, o
papel de cuidador já terá sido tomado, e seu irmão escolherá outro papel
para exercer na família, talvez o do realizador.
Somos pais diferentes com cada filho
Como pai ou mãe, você se lembra bem de seu primeiro filho. Foi aquele
que você vigiava quando estava dormindo, para ter certeza de que
continuava a respirar. Foi o bebê que você carregou no colo e amamentou
e/ou para o qual esterilizou mamadeiras por mais tempo. Esse filho é o
único que terá tido o monopólio dos pais; todos os outros filhos foram
obrigados a dividi-los.
O filho primogênito nasce numa família de adultos que se orgulha de
cada conquista dele e teme todo machucado ou acidente potencial. O filho
do meio com frequência é dominado pelo primogênito, que é mais velho,
sabe mais e é mais competente. Quando nasce o filho caçula, os pais
geralmente já estão cansados e têm menos tendência a querer controlar
tudo. Quando você tem seu caçula, já sabe que seu bebê não vai quebrar;
logo, pode ser mais flexível em termos de atenção e disciplina. O
resultado é que seu bebê aprende desde cedo a seduzi e divertir vocês.
O realizador, o pacificador e o brincalhão
Enquanto o filho mais velho é programado para alcançar excelência e
realizações, o filho do meio é criado para ser compreensivo e
conciliador, e o caçula quer atenção. Assim, a ordem de nascimento dos
filhos é uma variável poderosa no desabrochar da personalidade de cada
um.
O primogênito: o realizador
O primogênito provavelmente terá mais em comum com outros
primogênitos do que com seus próprios irmãos. Pelo fato de ter sido
alvos de tanto controle e atenção de seus pais, marinheiros de primeira
viagem, os primogênitos são responsáveis até demais, confiáveis, bem
comportados, cuidadosos --versões menores de seus pais.
Se você é filho primogênito, é provável que seja um realizador que
busca aprovação, domina e é aquele perfeccionista que suga todo o
oxigênio que há na sala. Você pode ser encontrado em profissões que
requerem liderança, como direito, medicina, ou ser CEO de uma empresa.
Como mini-pai ou mãe, também tenta dominar seus irmãos. O problema é
que, quando nasce o bebê número dois, você tem um sentimento de perda.
Ao perder seu lugar no trono familiar, você também perde o lugar
especial decorrente da singularidade. Toda a atenção que era voltada
exclusivamente a você agora terá que ser compartilhada entre você e seu
irmão.
O filho do meio: o pacificador
Se você é filho do meio, é provável que seja compreensivo, cooperador
e flexível, mas também competitivo. Você se preocupa com o que é justo.
Na realidade, como filho do meio, é muito provável que escolha um
círculo íntimo de amigos para representar sua grande família. É nesse
espaço que encontrará a atenção que lhe faz falta em sua família de
origem. Como filho do meio, você é quem recebe menos atenção de sua
família, e por essa razão essa família que você escolheu é sua
compensação. Como filho do meio, você está em muito boa companhia:
presidentes americanos notáveis e celebridades como Abraham Lincoln,
John F. Kennedy, Winston Churchill, Bill Gates, Donald Trump e Steve
Forbes também o são. Embora em muitos casos você só se destaque mais
tarde na vida, acabará em profissões poderosas que lhe permitam fazer
bom uso de suas habilidades de negociador -- e também conseguir aquela
atenção que lhe faz tanta falta.
Você e seu irmão mais velho nunca vão se destacar na mesma coisa. O
traço de personalidade que o define como filho do meio será o oposto
daquele de seu irmão mais velho e do menor. Mas as ótimas habilidades
sociais que você aprendeu por ser o filho do meio --negociar e
orientar-se dentro de sua estrutura familiar-- podem prepará-lo para um
papel de empreendedor num palco maior.
O filho caçula: aquele que anima a festa
Se você é o caçula da família, seus pais já se sentiam confiantes em
seus papéis de cuidadores; por essa razão, eram menos rígidos e não
necessariamente prestavam atenção a cada passo ou marco seus, como
fizeram com seus irmãos mais velhos. Assim, você deve ter aprendido a
seduzir as pessoas com seu charme e simpatia.
Como filho caçula, você tem mais liberdade que os irmãos mais velhos
e, em certo sentido, é mais independente que eles. Como o caçula, você
também tem muito em comum com seu irmão mais velho, já que vocês foram
tratados como especiais, dotados de certos direitos inatos. Sua
influência se estende a toda a família, que lhe dá apoo emocional e
físico. Logo, você tem um sentimento de segurança e de ter seu lugar
próprio.
Provavelmente não o surpreenderá observar que os filhos caçulas com
frequência encontram profissões ligados ao entretenimento, como atores,
comediantes, escritores, diretores e assim por diante. Eles também dão
bons médicos e professores. Como seus pais foram mais descontraídos e
lenientes, você tem a expectativa de ter liberdade para seguir seu
próprio caminho em estilo criativo. E, como o caçula da família, carrega
menos responsabilidade, e por essa razão não atrai experiências
responsáveis.
O filho único
Se você é filho único, cresce cercado por adultos e, por essa razão,
com frequência sabe verbalizar as coisas bem e tem bastante maturidade.
Isso possibilita ganhos de inteligência que excedem outras diferenças de
ordem de nascimento. Tendo passado tanto tempo sozinho, você é
engenhoso, criativo e tem confiança em sua independência. Se você é
filho único, na realidade tem muito em comum com os primogênitos e
também com os caçulas.
Pais: conheçam seus filhos
Em última análise, é importante para os pais conhecer seus filhos.
Ainda mais importante que a ordem em que eles nasceram é criar um
ambiente positivo, sadio, seguro e estimulante. Compreendendo a
personalidade e o temperamento de cada filho, você pode organizar o
ambiente dele de modo a aproximá-lo de seu potencial mais pleno. Por
exemplo, sabendo que o filho primogênito tem grande senso de
responsabilidade, você pode aliviar a carga dele, e reconhecendo que o
caçula está vivendo em um ambiente mais leniente, você pode ser mais
exigente em termos de disciplina.
A criança precisa ter direito de buscar seu próprio destino, seja
qual for seu papel na família, e, como mãe ou pai, sua tarefa mais
importante é apoiá-la nessa sua jornada individual.
Pequeno adendo sobre Ordem e Hierarquia, no conceito das Constelações Familiares:
"Existe uma ordem em relacionamentos que atribui aos membros, mas antigos a precedência em relação àqueles que vieram depois. Denomino-a de ordem original. Neste sentido um casal encontra-se no mesmo nível, pois iniciam a relação ao mesmo tempo. O mesmo vale para os pais. Entre eles não existe uma preferência nesse sentido. Eles começam juntos. Aqui também são equivalentes.Quando eles têm filhos, o primeiro tem uma preferência hierárquica em relação ao segundo, e o segundo tem uma preferência hierárquica em relação ao terceiro. Isso não significa que o primeiro filho possui o poder de dar ordens aos outros irmãos, mas de acordo com a hierarquia, ele vem antes e, naturalmente, os pais têm a preferência hierárquica em relação aos seus filhos.O efeito é bom quando respeitamos a ordem original, por exemplo, quando uma família senta-se à mesa. Imaginem que, de um lado, estão os pais, o homem senta-se à direita da mulher, a mulher à esquerda do homem. As crianças ficam de frente para eles, primeiro o filho mais velho, à sua esquerda o segundo e assim por diante. A ordem hierárquica segue o sentido do relógio, porém, o primeiro filho pode também se sentar à esquerda da mãe, depois o segundo e o terceiro e assim por diante, de modo que formem um círculo. Se os conflitos na mesa são freqüentes, manter essa ordem gera a paz."
"Quando um mais novo assume algo de funesto em lugar de um mais velho,
mesmo que seja por amor, ele se intromete na esfera mais pessoal de
alguém que hierarquicamente o precede e
tira dessa pessoa e de seus destino funesto sua dignidade e força. Nesse
caso, do lado bom do destino difícil já não resta a ambos a coisa em
si, mas apenas o preço pago por ela. Quando um filho infringe a
hierarquia do dar e tomar, ele se pune com severidade, frequentemente
com fracasso e o declínio, sem tomar consciência da culpa e da conexão.
Isto porque, como é por amor que ele transgride a ordem ao dar ou tomar o
que não lhe compete, não se dá conta da própria arrogância e julga que
está agindo bem. Porém, a ordem não se deixa suplantar pelo amor. Pois o
sentido de equilíbrio que atua na alma, anteriormente a qualquer amor,
leva a ordem do amor a fazer justiça e compensação, mesmo ao preço da
felicidade e da vida. Por essa razão, a luta do amor contra a ordem está
no início e no fim de toda tragédia, e só existe um caminho para
escapar disso: compreender a ordem e segui-la com amor. Compreender a
ordem é sabedoria, segui-la com amor é humildade."
Bert Hellinger
E, segundo o Journal of Research in Personality:
A teoria sobre esta relação foi proposta em 1920 por Alfred Adler, companheiro e amigo de Sigmund Freud. Segundo Adler, a ordem de nascimento de um filho em uma família tem um papel muito importante.
-
Primogênito (filho mais velho). Segundo Adler, o primeiro filho
é mais conservador, tende a assumir um papel autoritário e possui
qualidades de líder. Acostumado a cuidar e a proteger os irmãos mais
novos, ele também é carinhoso e costuma a se transformar em um bom
pai/mãe no futuro. Além disso, é uma pessoa que tem iniciativa.
-
Segundo filho (irmão do meio). Se deixa influenciar
pelo irmão mais velho. Muitas vezes, luta para ser melhor do que ele.
Costuma colocar metas mais altas para tentar ser melhor e, por isso,
tende a fracassar mais. Não obstante, isso só o faz mais forte.
-
Filho mais novo (irmão mais novo). Em geral, está
cercado de carinho e atenção. Pode se sentir inferior e até mesmo ser
dependente. Não obstante, é motivado e sempre luta para superar
os outros irmãos. Muitas vezes, se transforma no melhor na área
escolhida, como esporte ou música, e se relaciona muito bem com
as pessoas. Pode ser mais irresponsável e despreocupado que os outros
irmãos.
-
Filho único. Muitas vezes, compete contra seu pai.
Em geral, se esconde embaixo das asas da mãe e sempre espera que cuidem
dele. Precisa de proteção. A dependência e o egocentrismo são traços
muito fortes na personalidade de um filho único. Costuma ter
dificuldades para se relacionar com pessoa da mesma idade que ele. Não
obstante, é perfeccionista e sempre luta até o final para alcançar
as metas estipuladas.
Uma pesquisa encontrou mais provas de que a ordem de nascimento influencia
a formação da personalidade. Cientistas analisaram as personalidades
de 370 mil alunos nos Estados Unidos. As principais conclusões foram essas: os primogênitos são mais
honestos e propensos à liderança, além de menos sociáveis e resistentes
ao estresse. Irmãos do meio são mais responsáveis e focados. Os filhos
mais novos são mais abertos e sociáveis. Os filhos únicos, muitas vezes,
se mostraram mais nervosos, mas amigáveis e sociáveis.
Concluindo... Na realidade, os dados das pesquisas mostram algumas imprecisões porque
não consideram uma série de fatores sociais muito importantes, como
a nacionalidade, a educação e as outras relações dentro da família. Sim,
a ordem influencia a personalidade, mas a relação pai e filhos também
deve ser observada, assim como as diferentes formas como os pais educam
cada filho dentro da mesma família.
Para aprofundar a temática se sugere a leitura das obras e referências:
Alfred Adler - A ciência da Natureza Humana
Bert Hellinger - A simetria oculta do Amor
Donald Woods Winnicott - Objetos transicionais e fenômenos transicionais / O brincar e a realidade
Jacques Lacan - Os complexos familiares
Karl König - Irmãos e irmãs
Melanie Klein - Inveja e gratidão
René Kaës - O complexo fraterno
Sigmund Freud - Totem e Tabu