Pesquisar este blog

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Amor à beira do precipício - As psicoses



"Uma psicose, principalmente a esquizofrenia, manifesta-se em famílias onde ocorreu um crime, um crime dentro da família. Frequentemente, este evento ocorreu muitas gerações atrás. E, claro, não resta nenhuma lembrança do evento. Mas, no campo do espírito desta família está preservada a memória do evento e vem à luz."
Bert Hellinger



Hellinger, para uma mulher: Do que trata o seu caso?
Mulher: Na minha família há psicose, eu estou envolvida também. Fui internada três vezes em um hospital psiquiátrico.
Hellinger, ao grupo: Perceberam como ela falou comigo? Olhou-me direto nos olhos e me expôs seu problema com clareza. Trata-se, pois, de um problema sério e me parece que tenho permissão para trabalhar com ele.
Para a mulher: Farei isso: Se vê você com cara de infeliz.
Ela ri. Hellinger com ela.
Hellinger: Faremos algo por isto também?
Mulher: Quer dizer que podemos mudar algo do infeliz? Sim, seria bom.
Hellinger: Farei o melhor que posso para isto.
Para o grupo: Tenho trabalhado frequentemente com a psicose. Se agora o faço com ela, teremos um bom exemplo para aprender a tratar a psicose de outra forma.
Hellinger escolhe alguém como representante.
Para o grupo: Vou experimentar algo que nunca fiz até agora.
Para a representante: Você representa a Psicose.
A representante da Psicose se torna intranquila. Move-se da direita para a esquerda, coloca os punhos no quadril, e olha para o chão. Em seguida deixa cair as mãos e dá um passo para a frente.
Novamente coloca os punhos no quadril. Sacode com força a cabeça, olha para cima, se abaixa até o chão e tenta tocar, com as mãos, alguém que ela imagina ali.
Rapidamente se recompõe de novo.
Repete os mesmos movimentos: olha para cima e, em seguida, para o chão, coloca os punhos no quadril, solta-os outra vez e gira de ambos os lados. Cobre os olhos com uma mão, gira para a direita como se quisesse empurrar alguém.
Hellinger escolhe outra pessoa e a coloca em frente da Psicose. Diz a ela que não sabe a quem representa.
A representante da Psicose se vira-se de costas, com medo, e começa a tremer. Logo, passo a passo e de lado, se dirige a ela, parando no meio do caminho e afastando-se outra vez, de lado. Ao fazer isto, solta sons angustiados, como uma criança.
Hellinger para a Psicose: Diga “por favor”.
Psicose: Por favor.
Diz isso com uma voz aguda e chorona de criança. Segue choramingando com esta voz, mas sem pronunciar palavra alguma. Treme, de vez em quando estende a mão para a outra pessoa e a recolhe outra vez.
A segunda representante segue impassível em seu lugar.
Agora a representante da Psicose se aproxima da outra pessoa, dá uma volta ao seu redor, se esconde atrás dela e fica próxima a ela.
Depois de um tempo, gira em torno da mulher. A mulher gira e fica de frente a ela, e olha com muita reserva. A Psicose se afasta, mantendo-se de frente e fixa seu olhar nela. A mulher retrocede lentamente, afastando-se da Psicose.
Hellinger para a mulher: Diga para a Psicose: “por favor”.
Mulher: Por favor.
Logo depois, a Psicose dá uns passos para mais longe. A mulher faz o mesmo.
Depois de um momento, se dirige lentamente para a Psicose. Mas esta retrocede, mantendo a distância entre elas. Logo, as duas se aproximam muito devagar e se imobilizam a uns dois metros uma da outra.
Hellinger pede para outra mulher deitar-se de boca pra cima entre as duas mulheres. Ela representa um morto.
A Psicose começa a tremer violentamente e olha com persistência para a morta. Aproxima-se da morta e, por cima dela, estende uma mão trêmula para a outra mulher, que, por sua vez, olha para a morta. E quanto à morta, se afasta da Psicose e olha para a segunda mulher em pé. A Psicose de dirige devagar até ela, deixando de lado a morta e pára atrás dela. Esta segunda mulher tem o olhar intensamente fixado na morta agora.
A Psicose dá um passo atrás e vira-se para o outro lado, como se tivesse cumprido sua tarefa de colocar em contato as duas mulheres (uma morta e a outra viva). Vai se acalmando.
A mulher viva se aproxima da morta, a qual lhe estende a mão. Ajoelha-se a seu lado e pega a sua mão. Em seguida, a Psicose retrocede ainda mais. Põe-se de joelhos, sentada em seus calcanhares e, em frente às outras duas, inclina-se profundamente. A mulher viva se deitou ao lado da morta. Ambas se olham nos olhos e se abraçam profundamente.
A Psicose segue ajoelhada e vira-se completamente, olhando para o outro lado.

O que é que leva à psicose?

Hellinger para o grupo: Gostaria de dar alguns esclarecimentos a respeito da minha experiência atual, referente à psicose, Uma psicose, principalmente a esquizofrenia, manifesta-se em famílias onde ocorreu um crime, um crime dentro da família. Frequentemente, este evento ocorreu muitas gerações atrás. E, claro, não resta nenhuma lembrança do evento. Mas, no campo do espírito desta família está preservada a memória do evento e vem à luz.
Nesta constelação, pudemos ver que a representante da Psicose estava totalmente desorientada por todo tipo de sentimentos. Quando coloquei uma pessoa suplementar, pudemos ver que esta pessoa e a Psicose encontravam-se mutuamente atraídas de maneira significativa.
Para esta mulher: Não sabemos quem é esta pessoa. Talvez pertença a uma geração anterior.
Para o grupo: As duas se atraiam, e havia a mesma palavra chave para as duas. A palavra “por favor” por parte da Psicose para esta mulher e a mesma palavra desta pessoa para a Psicose. A Psicose dizia à mulher: “por favor, faça algo” e a mulher dizia à Psicose: “por favor, ajude-me”. A Psicose estava, portanto, a seu serviço.
Em seguida, experimentaram se reunir, mas não funcionou. Algo impedia isso. De repente, ficou claro que, entre as duas, havia um morto. Por isto, coloquei uma pessoa representando um morto no chão. E quando se colocou deitado e a mulher pôde olhar o morto, a Psicose pôde retirar-se. Tinha cumprido sua tarefa.
Para a mulher: Pudemos ver com clareza que a Psicose tinha terminado seu trabalho.
Para o grupo: Por que alguém se torna psicótico? Bem, quando está intrincado (emaranhado), ao mesmo tempo, com duas pessoas em oposição, que estão sem se reconciliar. Na minha experiência atual, sempre se trata de um assassino e de sua vítima. Não estão ainda reconciliados com amor. Na constelação que acabamos de ver, conseguiram, por fim, reunir-se. O que não estava reconciliado, foi re-encontrado, e o problema que não estava resolvido, foi solucionado.
Para a mulher: Quando, em uma família ocorre um problema assim, em cada geração posterior um membro desta família deve representar aos que ficaram sem se reconciliar, e se torna, de uma maneira ou outra, psicótico, como provavelmente você já sabe.
A mulher concorda.
Porém, não estão doentes. Estão na busca de uma solução com amor. Todos buscam uma solução com amor. A psicose busca também uma solução através do amor. Quer juntar, novamente, aqueles que ficaram separados, sem reconciliação, e que se viram excluídos da família, por causar angústia aos demais. É por isso que ninguém olha mais para eles.
Para o grupo: O que vimos aqui é uma bela imagem do movimento do espirito e como, graças à psicose, conseguiu conectar o que estava separado.
Para a mulher: É provável que a psicose tenha representado, aqui, várias pessoas simultaneamente. Contudo, pudemos observar sua função com muita clareza e precisão. E como você está agora?
A mulher: Estou melhor.
Hellinger: Agora, se aproxime da representante da Psicose e a abrace.
A mulher se ajoelha em frente da representante da Psicose, que ainda está no chão, de cócoras, e cobre seu rosto com as mãos. A Psicose olha para cima e lhe alcança as mãos, mas depois de um tempo as deixa cair de novo. A cliente vira a cabeça para o lado e olha para o chão. Inclina-se profundamente até repousar a cabeça no colo da Psicose. Começa a chorar com força. Depois de um tempo, se recompõe e tira as mãos da frente do seu rosto, olhando a Psicose nos olhos. Outra vez gira a cabeça para o lado e olha para o chão. Mas tarde, a psicose se movimenta até ficar de joelhos ao lado da cliente. E com ela, olha para o chão.
A cliente deseja tocar as costas da Psicose, mas não se anima a fazê-lo. Após alguns instantes a roça com cuidado, apoia sua cabeça no ombro da Psicose e lhe segura o braço.
Um pouco mais tarde, a Psicose gira a cabeça para ela, ambas querem tocar-se na bochecha. Nesse instante, a Psicose se retira e olha novamente para o chão. Estes movimentos se repetem várias vezes. Então, a cliente se senta em frente à Psicose e lhe segura as mãos. Depois de um tempo, afasta o olhar e logo olha de novo para a Psicose. Ambas soltam as mãos. A Psicose olha novamente para o chão.
Em seguida, se vira. A cliente se senta ao seu lado, no chão. A Psicose quer colocar a mão nas costas da cliente, mas rapidamente a retira. Ambas se olham minuciosamente. A cliente coloca a mão nas costas da Psicose e continuam olhando-se intensamente. A Psicose olha para o chão de novo. A cliente retrocede um pouco e dá um profundo suspiro. Depois de um tempo, a Psicose se levanta, dando uns passos para trás. A cliente também se levanta. Ambas olham para o mesmo ponto no chão. E, de novo, voltam a se olhar. Olham-se nos olhos e cada uma retrocede um pouco.
A cliente gira e olha para as duas pessoas deitadas no chão. As duas estão com a boca para cima, com a cabeça lado a lado, olhando-se e segurando as mãos. A cliente se vira em direção a elas e dá uns passos atrás. A Psicose também se afasta.
Hellinger, para a mulher: Agora, olhe por cima das duas, mais além, para o que está longe.
A cliente dá um olhar rápido para o que está longe e volta a virar-se para a Psicose.
Hellinger: Agora, olhe também mais além da Psicose, para o que está longe.
O rosto da Psicose se torna claro. Retira-se de lado, enquanto a cliente se vira para o grupo.
Hellinger: Agora, olhe para todos do grupo.
A cliente se vira e começa a chorar.
Hellinger para a mulher e as representantes: Fiquem assim como estão. Quero explicar algo.
Para o grupo: Estes movimentos foram de uma incrível beleza e profundidade. Foram tão exatos. Ninguém poderia inventá-los. As duas estavam envoltas por algo muito poderoso e movidas por isso.
Pois bem, o que vimos aqui? Entre a cliente e a Psicose aconteceu algo parecido ao que aconteceu antes entre as duas mulheres no chão. A Psicose representava ao assassino, e a mulher a uma vítima. A mulher se comportou como vítima, e se comportou, em relação à Psicose, como uma vítima. Desta mesma forma é tratada a psicose nas famílias onde se apresentam casos de psicose. As famílias demonstram, em relação à psicose, esta mesma atitude interior de exclusão e medo, como fazia o assassino. E tratam, com frequência, o familiar psicótico como o assassino trata a sua vítima. Desconhecem o que, na realidade, a psicose carrega como fardo em seu lugar e aonde isso as quer levar.
No final, a Psicose queria que a deixassem em paz. Assim que foi vista e reconhecida, mesmo que não completamente, pôde se retirar.
Para os representantes: Obrigado a todas.
Para a mulher: Sente-se ao meu lado. Como está agora?
Mulher: Bem melhor.
Hellinger: A pobre infeliz ainda está iludida.
Mulher: Por que você está falando isso?
Começa a rir alto.
Hellinger: Isso soa melhor.
A mulher continua rindo, olhando para Hellinger.
Hellinger: Claro, temos que pensar, também, que a psicose é algo especial para muitos. Apenas mencionando: sou psicótico, os demais já se assustam. Isso não é maravilhoso?
A mulher continua com a risada e concorda.
Hellinger: Você desfrutou disso também. Claro, você desfrutou disso.
Para o grupo: É dessa maneira que os psicóticos mostram que estão também identificados com o assassino.
A mulher concorda.
Para o grupo: Acredito que já vimos o suficiente. Agora, tudo isso atuará dentro de nós. A representante da Psicose foi extraordinária. Estava realmente conectada com o movimento do espirito e pudemos acompanhá-la a cada momento. Para mim, foi incrivelmente preciso e bonito. Ainda não tinha feito uma coisa assim, configurar uma representante para a psicose.

A psicose, um problema familiar

Depois do acontecimento desencadeador, em cada geração um membro da família deve tornar-se psicótico. Este membro se encarrega do que pertence a outros. Assim que se torna psicótico, o resto da família fica aliviado. Por conseguinte, os demais membros temem que a pessoa psicótica se cure e se unem secretamente contra uma cura bem sucedida de sua psicose. Porque correm o risco de que outro membro se torne psicótico. Pudemos, mais que tudo, perceber este medo no pai ou na mãe. A pessoa que se encarrega deste destino, demostra o maior amor, mas em segredo.
Quando, apesar da resistência por parte de muitos psicoterapeutas e psiquiatras, dei meu primeiro seminário para clientes psicóticos, me comoveu profundamente o amor desses clientes. Por isto, intitulei o livro que eu escrevi sobre o tema “Amor à beira do precipício”. Isso é o que podemos observar nos casos de psicose. O amor.
Para a mulher: Quando esse amor vem à luz, você sabe quão importante você foi para a família e quanto carregou por eles.
Ela sorri e concorda.
Para o grupo: Por isso não se pode tratar os psicóticos como indivíduos isolados. Temos que tratar a toda a família e ajudá-los em conjunto.
Para a mulher: O que eu fiz aqui, foi também a serviço da sua família. Ninguém deve temer tornar-se psicótico, porque você conseguiu sair da psicose.
Para o grupo: Tratou-se, neste caso, da cura de muitas gerações.

Os ajudantes

Podemos, inclusive, observar uma situação similar com os psiquiatras e seus assistentes nos estabelecimentos psiquiátricos. Se não tivessem pacientes psicóticos para cuidar, talvez se vissem presos ao medo deles mesmo se tornarem psicóticos.
Para a mulher: Você pode sentir isso também?
A mulher concorda com a cabeça.
Porque, freqüentemente, houve em suas famílias um crime oculto contra um membro da família. Sob este aspecto, os ajudantes das instituições psiquiátricas, se comportam como os parentes de seus pacientes. Qual é a solução para este caso?
Não podemos esperar que estes conhecimentos sejam aceitos tranquilamente pelas instancias psiquiátricas. O medo dos resultados e das suas consequências é grande demais. É compreensível!
Para o grupo: Farei um exercício com ela. Agora ela representa a todos nós.
Para a mulher: Fique em pé aí e olhe nesta direção. Você olha, agora, para todas as instituições psiquiátricas e clinicas. Em seguida, olhe para cima delas, muito longe, em direção àquela força que, inclusive, atua sobre elas, com a mesma dedicação e amor, para todas elas. E depois, você se afasta, devagar, mantendo seu olhar na mesma direção.
A mulher se mantém por muito tempo nesta atitude.
Hellinger: Fique assim, sempre com o olhar para lá. Não o desvie em nenhum momento. Olhe mais além de tudo isso, com total confiança no movimento deste espírito, que se encarrega de mover a todos igualmente, assim como ele quer. E, neste nível, ninguém é melhor ou pior, não há mais perpetrador nem vítima. Todos são simplesmente humanos.
Depois de um tempo: E agora se vire para as pessoas do grupo.
Ela lentamente vai se virando.
Hellinger: Pode olhar para todos. E diga: “Aqui estou”.
A mulher: Aqui estou.
O grupo aplaude.
Hellinger: “Uma de vocês”.
A mulher: Uma de vocês.
Ela aplaude, em resposta.
Hellinger: Está bem.



Referências Bibliográficas:

Este trecho encontra-se:  Amor à beira do precipício. Revista Hellinger Scienciamarço 2008

Hellinger, B. - Liebe am Abgrund. Ein Kurs für Psychose-Patienten (O Amor à beira do abismo. Um curso para pacientes de psicose), 2001, Heidelberg (Carl-Auer-Systeme)

Hellinger, B. - Amor do Espirito na Hellinger Sciencia. Editora Atman, 2009

Nenhum comentário:

Postar um comentário