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segunda-feira, 13 de março de 2017

A reverência






"A reverência provoca uma mudança na alma. Podemos sentir isso em nós quando curvamos levemente a cabeça. Que movimento nasce então na alma? Algo emerge das profundezas, alcança a cabeça e flui para a outra pessoa. É um movimento de respeito e de homenagem, que nos liga a essa pessoa. Aparentemente, esse movimento nos torna pequenos. Na verdade ele nos une à outra pessoa no mesmo nível humano. A reverência profunda tem um efeito bem diferente. Nela eu me torno pequeno diante de alguém. Eu o respeito e lhe digo: "Você é grande e eu sou pequeno.” Nessa reverência profunda eu me abro para aquilo que essa realidade grande ou essa pessoa grande me dão. Convém fazê-la diante de nossos pais e também diante dos mistérios da vida. Ela permite que nosso coração se abra para o que nos é dado.Em seguida nos erguemos e viramos, no sentido de que passaremos adiante o que recebemos. Fomos pequenos ao receber, tornamo-nos grandes ao dar.

A reverência profunda é, portanto, uma condição para transmitirmos a vida que nos foi dada – pois ela não nos pertence, foi algo que recebemos. Então entramos na grande corrente da vida, recebendo e transmitindo. Nisso somos iguais a todos os seres humanos. Existe ainda uma reverência ainda mais profunda: nós nos ajoelhamos e nos curvamos profundamente, com os braços estendidos para a frente e as palmas voltadas para cima. Ela é um prolongamento da reverência profunda. Convém fazê-la quando nos tornamos culpados em relação a alguém. Seu efeito é o de uma profunda súplica: “Por favor, olhe para mim outra vez.” Com frequência devemos fazê-la aos nossos pais quando cometemos alguma injustiça contra eles. Terá sido esse o gesto do filho pródigo da parábola do Evangelho, ajoelhando-se diante de seu pai, fazendo-lhe uma profunda reverência dizendo-lhe: “Já não sou digno de me chamar seu filho. Por favor acolha-me como um de seus servos.” E qual foi o efeito dessa profunda homenagem, dessa súplica do fundo da alma? O pai se inclina para o filho, o levanta e abraça. 

Esse seria, também, o gesto de um perpetrador diante de sua vítima. Ele promove a reconciliação. E reconciliação, nesse contexto, significa que o que ocorreu pode ser esquecido. Imagino que ela ocorra principalmente no reino dos mortos, quando as vítimas e os perpetradores finalmente jazem lado a lado. Então acontece a paz. Essa reverência ainda pode ser reforçada, na medida em que a pessoa se prostra no chão e estende os braços para a frente. Essa reverência, a mais profunda de todas, é indicada, às vezes, diante de pessoas contra quem se cometeu uma injustiça muito grave. E devemos fazê-la também diante de Deus ou do mistério que, sem conhece-lo, chamamos por esse nome.Um outro tipo de reverência diante desse mistério consiste em nos curvarmos profundamente abrindo os braços. Essa reverência ampla não tem um caráter exclusivamente pessoal. Ela se faz em união com muitas outras pessoas. Ela nos acalma, nos insere na comunidade humana e até mesmo nos faz transcendê-la."


Bert Hellinger

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